SE DEUS EXISTE, ELE ENTREGA A BELEZA AOS POUCOS.
“Se Deus existe, ele entrega a beleza aos poucos e nada é perfeito”. Esta frase, que tem por sentido entregar de forma parcial e não total, foi dita por um agnóstico, escritor de um livro chamado O Auto do Félix Fausto, sob o pseudônimo de Roberto Albiazar. Encontrei-me com ele na Livraria Cultura da av. Paulista, e por algumas horas, conversamos sobre diversos assuntos, desde ballet clássico e música clássica (suas especialidades) até teologia (minha?).
A frase que abre este artigo é inquietante e me remeteu a outra dita pelo Apóstolo Paulo, com a qual traço um paralelo para a nossa reflexão:
“Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. (1 Coríntios 13:12)
Ambas as frases são por demais enigmáticas e guardam entre si uma similaridade teleológica; beleza e conhecimento possuem um adjetivo comum: imperfeito.
A beleza ou o conhecimento que temos disponíveis são incompletos e inacessíveis, dos quais somente é revelado um vislumbre, e ainda assim, de forma contida e parcial. Nunca desfrutaremos da beleza absoluta, tampouco teremos conhecimento sobre tudo. Neste aspecto, qual a razão de sermos privados da beleza absoluta ou do conhecimento absoluto? Existe uma razão para isto?
O Belo sempre foi objeto de perscrutação filosófica desde os gregos; com Platão e Aristóteles, perpassando pelos filósofos modernos; como Kant e Hegel, e refletido na atualidade; nas penas de Sponville e Scruton.
Por mais que nos deslumbremos, ao ponto do êxtase, com uma escultura cinzelada por Michelangelo ou Bernini; ou nos traços "perfeitos" de uma pintura de Vemeer ou Rembrandt; ou quem sabe, na poesia de Dante ou Eliot; ou, como me apresentou o colega Albiazar, nos movimentos leve e precisos do Ballet coreografado por Marius Petipa em sua obra-prima o Lago dos Cisnes (composta por Tchaikovski) ou nas músicas de Bethoven ou Bach. Todos, célebres artistas, tocados por um dom singular, que expressaram através da arte uma beleza quase etérea entre os homens, mas, ainda assim; “quase”. Uma beleza parcial, uma obra incompleta, imperfeita, recebida aos poucos e nos entregue da mesma forma.
Esta ideia de beleza imperfeita, ou da própria imperfeição que nos cerca, compreende, numa escala maior, o próprio Universo. Por mais espantoso e sublime que seja o cosmos e seus movimentos astrofísicos, revelam-se aos astrônomos e pesquisadores numa beleza...imperfeita. E tem que ser assim! É tudo um vislumbre. Esta beleza que está no caos, um dia pretende alcançar a plenitude. Neste aspecto, recomendo a leitura do livro do físico Marcelo Gleiser: A Criação Imperfeita.
A imperfeição do conhecimento, de um lado delineada nas palavras do Apóstolo Paulo, no âmbito de um discernimento espiritual, já havia sido debatida por Platão no âmbito do discernimento material, epistemológico. O homem, para alcançar o pleno conhecimento, precisa libertar-se. Tal entendimento está esposado no mito da caverna. Para Platão o que aprisiona é a condição humana, é a matéria que impede a sublimidade da alma. O corpo e seus desejos são as cadeias que impedem o pleno conhecimento, que somente pode ser adquirido e sorvido por uma alma livre.
Da mesma forma, Paulo compreende que a perfeição do verdadeiro Belo e o pleno conhecimento do eterno e de si próprio, somente serão possíveis quando a criatura se encontrar com o criador. O plano terreno é o óbice. A materialidade do corpo e os instintos naturais, per si, tornam-se uma barreira para a contemplação do que é pleno, seja o verdadeiramente belo ou o verdadeiro saber. Eis a razão do frêmito da alma e da efemeridade da felicidade. Estes fugazes momentos são como gotículas ansiadas pela alma, e sempre deixarão um gostinho de “quero mais”. Esta é a nossa busca.
A diferença entre o filósofo grego e o apóstolo cristão, reside na forma como se dará esta separação. Enquanto para àquele a alma se desprende do corpo e se une ao plano superior; para este, corpo e alma se transformam com a ressurreição. Para o primeiro há a separação física, para o segundo; a dicotomia (corpo e alma) se fundem em um único ser e se separam do mundo para se unir ao criador.
É a imperfeição que nos motiva a continuar e nos avisa: “Somos finitos! ” Precisamos ser cônscios desta condição e, - parafraseando Muriel Barbery -, saber que a beleza não está nas grandes coisas desta terra que perecerão e sim, nas pequenas, que sem nada a pretender, sabem incrustar no instante, uma pequena e preciosa pedra no infinito. A beleza está na imperfeição, assim como o conhecimento é imperfeito.
O modelo perfeito existe, não aqui, neste mundo. Infelizmente não é uma questão racional e filosófica. É algo transcendente, a ser alcançado por quem tem um outro tipo de esperança, que também tem outo nome: fé.

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